Quando o Diabo Veste Verde
Fui última coordenadora a chegar ao Campus Party, mas desde o primeiro minuto pude sentir uma proximidade imensa com todas as áreas e com todas as pessoas. O ambiente criativo, a necessidade de mudança e a busca pela inclusão vieram de encontro com tudo o que sempre acreditei.
Um dia, alguém disse que a pior forma de poluição é a miséria. Outro dia, nem faz tanto tempo assim, outro alguém escreveu que a pior forma de miséria é a exclusão digital. As frases fazem alusão a um mundo comandado por “proprietários? e suas pseudotendências, muitas vezes exaustivamente propagadas sem nexo ou questionamento algum. Azar de quem acredita e repete! Nós não repetiremos!
O blogueiro e pesquisador Marcelo Leite, em sua coluna na Folha de São Paulo, escreveu claramente sobre isso no dia 18/03/2007, em “Impostura Verde? e também no dia 9/9/2007 em “Indulgências Verdes?. Na época ele (não da área de tendências, mas de ciência) comentou sobre a proliferação dos heróicos eventos, campanhas e produtos carbon free.
Para introdução da página do Campus Verde redigi um texto que diz claramente: Toda interferência do homem provoca mudanças no meio ambiente. E nenhuma mudança pode ser, assim, digamos, “instantaneamente neutralizadas?. O porquê é simples. Os processos biológicos são processos. E todo processos, ao contrário do tempo de lançamento de produtos super-mega-novos levam tempo. Alguns muitos tempo.
Daí…torna-se impossível, hilário e ridículo dizer que há um sistema em que você compra de uma empresa algo capaz de neutralizar as emissões de carbono. Principalmente, porque um cálculo desses é muito complexo e não pode envolver apenas quantas pessoas circulam em um evento ou empresa. Há também inúmeras interações externas e muitas variáveis que obrigatoriamente devem ser consideradas.
O que podemos e devemos sempre fazer é minimizarmos nossos impactos. E para isso, Campus Verde e Software Livre vão trabalhar juntos. Um projeto para que todos tenham acesso ao cálculo mais verossímil possível. Uma ferramenta que não diga, apenas, quantas mudas de árvores (que já existem) você deve plantar para “neutralizar? sua emissão de carbono.
Um sistema que calcule quantas mudas, de que espécie (de acordo com a sua região) você pode plantar para minimizar os impactos provocados por sua interação. Mudas que não são superfaturadas, que não são plantadas por trabalhadores mal pagos, que sofrem com os mais diversos tipos de exclusão.
O Campus Verde poderia ter se resumido em contratar uma empresa para fazer o plantio mudas superfaturadas, cultivadas e plantadas por camponeses mal remunerados, excluídos digitais. E ainda por cima que nem saberíamos (nunca saberíamos se seriam plantadas ou não). Mas não fizemos. Decidimos ir além de um discurso, algo que vai além da cor (de uma cor daltônica declarada por muitos).
É um desafio para nós mesmos: elaborarmos uma metodologia honesta de avaliação de impactos para concebermos um software livre que permita calcular a emissão aproximada de carbono para que qualquer cidadão livre, incluído e conectado possa fazer sua parte.
Queremos estabelecer discussões e concebermos uma proposta inteligente sobre o lixo tecnológico, em parceria com a área de Modding na proposta de metareciclagem. Algo que não dá pra falar com três palavras sonoras como uma marca. Enfim, como tudo é um processo, o qual estou disposta a explicar, somar e compartilhar.
Os três mil computadores dos campuseiros já funcionavam em outros lugares, antes do Campus Party. Hoje o que mais precisamos neutralizar é a Informação e o Jornalismo na Era da Publicidade, relatado por Leandro Marshall.
Sejam da cor que quiserem!







Fato é que o evento se comprometeu a plantar árvores. No próprio site está escrito: “A Campus Party @ Campus Verde realizará o plantio de uma muda para cada participante do evento.” E pede até para o participante escolher em que lugar quer a árvore plantada (o que é insano, pois não vai dar pra controlar tal coisa). O que vai acontecer agora? Vão jogar a responsabilidade para os participantes? Tudo bem que eu usaria a internet na minha casa. Mas com certeza não usaria toda a infra estrutura de som, iluminação, banners, mídia (televisão, rádio). O evento deve arcar com suas emissões, uma vez que as emissões dos usuários são as mesmas que seriam praticadas em casa.
paulabio — terça-feira, 12 fevereiro 2008 @ 12:47 am