Saiu no G1 - WEB: Exército leva simuladores de combate à Campus Party

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, viajou em janeiro para a França e a Rússia para uma série de reuniões com autoridades do setor nestes países europeus. Na pauta estavam propostas de parcerias entre o Brasil e as nações no campo de tecnologia militar. A viagem mostrou que o governo reconheceu a necessidade brasileira de renovar seus equipamentos militares, pleito antigo do comando das Forças Armadas. Contudo, se o País ainda corre atrás das potências (e até da vizinha Venezuela, depois das últimas aquisições de armamentos russos feitas no ano passado pelo presidente Hugo Chávez) no que diz respeito à qualidade de seus aparatos bélicos - como submarinos, tanques, aviões, blindados e armas -, ao menos no campo de simulação de combate, as Forças Armadas não devem nada a ninguém.

Um estande das Forças Armadas na feira tecnológica Campus Party, realizada no prédio da Bienal do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, permite ao visitante conhecer e tomar parte de “brincadeiras? com os programas de simulação utilizados pelos militares brasileiros. Um deles é o “Steel Beast?, software de simulação de tanques de guerra e blindados semelhante ao utilizado na maior potência militar do mundo, os Estados Unidos, para treinamento de seus soldados. Segundo o cabo Alcindo Cervinski, auxiliar da seção de informática do Exército, a realidade proporcionada pelo jogo é notável.

O simulador parece um videogame. Na tela do computador, o usuário tem a visão gráfica semelhante àquela de dentro do veículo, e o manejo do blindado é feito por meio de uma espécie de joystick acoplado ao computador. Tudo em “primeira pessoa” (como se diz do gênero de jogo em que o usuário se vê do ponto de vista do personagem). “Temos condições aqui de simular quase completamente a experiência de uso dos blindados?, afirma Cervinski.

As possibilidades, de acordo com Cervinski, são diversas. O software, de uso exclusivo dos militares, fornece uma vasta coleção de tanques e blindados, cada um reproduzindo as características do modelo real. “Usamos para treinamento o modelo exato que possuímos, para que sejam simulados todos os aspectos. Isso permite inclusive que o veículo sofra no jogo avarias que ocorreriam num combate de verdade?, explica Cervinski. Segundo o 2º sargento de cavalaria Rogério - que preferiu omitir o sobrenome -, a semelhança com a vida real reforça a importância do uso do software. “Podemos, com esse programa, analisar os erros que são cometidos e corrigi-los antes de o soldado ter a experiência de usar o veículo real. Isso proporciona uma economia de tempo, dinheiro e até ambiental?, reforça.

Como a divisão de blindados do Exército brasileiro fica concentrada na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, os militares conseguiram, usando as ferramentas do software, reproduzir quase com exatidão o campo de treinamento militar do município - garantindo, assim, que todas as condições climáticas, topográficas e de vegetação sejam iguais às que o soldado encontrará quando finalmente estiver no blindado.

O jogo também proporciona a possibilidade de escolher qualquer “adversário? para realizar o treinamento. Contudo, há que se tomar alguns cuidados… “Não podemos usar o software para combater os carros blindados que os países vizinhos usam. Imagine que problema ocorreria se oficiais argentinos, por exemplo, estivessem nos visitando e, quando fôssemos mostrar o programa, eles vissem que os rivais eram eles. Ia ficar feio. Por isso, usamos veículos padrão como rivais?, conta o sargento Rogério.

Software único

O Exército não é o único ramo das Forças Armadas que aposta em software de simulação no treinamento de seu pelotão. Também na Força Aérea Brasileira (FAB), os programas de simulação no computador são importantes ferramentas de aprendizado e economia de tempo e financeira. De acordo com o sargento Cordeiro, da Seção de Ensino Assistido por Computador (Seac) da Aeronáutica, o programa de simulação de vôo vem sendo desenvolvido desde 2002 na FAB. “Nosso grupo administra uma verba de mais ou menos R$ 800 mil no desenvolvimento de melhorias para o programa, o ‘Flight Simulator’. Agora, o grande desafio é fazer uma integração com todas as outras Armas para o desenvolvimento de um software único para o Brasil?, explica Cordeiro.

Segundo o sargento Marcos Tavares, do Centro de Instrução de Aviação do Exército, o realismo é tanto que o treinamento inicial pode ser feito usando o software e o piloto não teria dificuldade depois de repetir, usando aviões reais, o que foi aprendido. “A sensação de vôo é tão boa que já aconteceu diversas vezes de pessoas com propensão a ter labirintite experimentarem o programa e, por conta do movimento da tela, o cérebro reconhecer como uma experiência real e elas acabarem por despencar?, relata Tavares. Segundo o sargento, o Exército dos EUA hoje tem baseado quase todo seu treinamento nos simuladores de vôo.

Na Campus Party, a simulação que a FAB apresenta é de um vôo de helicóptero. São duas telas de computador interligadas: uma na altura da cabeça, que reproduz a visão do piloto, enquanto maneja um helicóptero; e a outra, abaixo, com o painel de controle de uma aeronave. O controle é feito por meio de um sistema com simuladores de manche para as mãos e pedais. “Esse sistema é o FTD (Flying Training Device), que consiste em realizar a simulação do vôo na tela sem movimento. Temos também para treinamento da Aeronáutica simuladores que reproduzem além da tela, também o movimento em cabines”, explica o sargento Tavares.

O desenvolvimento e o repasse de tecnologia para a elaboração de software do Exército brasileiro ficam a cargo da empresa norte-americana Presagis, que, além das Forças Armadas brasileiras, ainda fornece soluções tecnológicas no País à Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A. (Embraer).

Segundo o equatoriano Esteban Proaño, CEO da Latinmedia, representante na América Latina de diversas companhias norte-americanas, entre elas a Presagis, o maior foco da empresa é a criação de “programas de simulação de alta fidelidade?. “Nossa próxima meta é ampliar a simulação. Por exemplo, no caso do software do tanque, criar a possibilidade de várias pessoas realizarem o mesmo exercício. Isso significa que, num carro blindado que transportaria quatro pessoas, temos quatro computadores e cada um pode simular sua função dentro do veículo?, explica Proaño.

Soluções tridimensionais

Segundo o CEO, a empresa elabora soluções tridimensionais também para companhias que desenvolvem videogames de simulação (na Campus Party também há jogos de simuladores de vôo que permitem aos usuários a experiência de pilotar um avião comercial ou tomar parte em históricos combates aéreos, como Pearl Harbor). Entre os clientes, além das Forças Armadas Brasileiras, estão exércitos de Estados Unidos, Chile, Peru e Colômbia. E a simulação não pára por aí. “Podemos adicionar elementos de crise para o treinamento, como a inclusão de veículos da Cruz Vermelha e também civis. Se tivermos boas imagens de satélites, como as do Google Earth, reproduzimos com exatidão os terrenos para treinamento?, conclui Proaño.

Fonte: G1 - Seção Home - WEB


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